A PRIMEIRA REVISTA DE HISTÓRIA EM QUADRINHOS DE FLAVIO CALAZANS – TRIBUTO A JOSÉ EVALDO DE OLIVEIRA.

A PRIMEIRA HISTÓRIA EM QUADRINHOS A GENTE NUNCA ESQUECE.

Tudo tem um começo, mas nem sempre conseguimos identificar o ponto onde algo inicia-se, eu considero-me privilegiado neste sentido, pois sei onde comecei toda a minha trajetória, o momento no qual comecei a desenhar Histórias em Quadrinhos, imagens sequenciais, que tornou-se minha principal forma de expressar meus sentimentos e pensamentos (“O que em mim pensa, está sentindo” Pascal).

Minha família morava em Santos, litoral de São Paulo e costumávamos passar as férias de veraneio em Poços de Caldas, estancia de águas minerais de Minas Gerais. Em 1966. Aos quatro anos de idade, levaram-me em uma dessas férias; e como contam que estranhei muito o “Hotel Qui si sana”, compraram um gibi para distrair-me, era FLECHA LIGEIRA número 86, 1966, da Rio Gráfica e Editora, desenhado por José Evaldo de Oliveira (somente tive estas informações em dezembro de 2016 graças ao colecionador gibis especializado em Faroeste KATRAM GIBIS).

Esta foi a primeira História em Quadrinhos com a qual tive contato, um Faroeste onde o protagonista é um Índio, ao contrário da maioria onde no máximo o índio era coadjuvante como Tonto de Zorro (Lone Ranger) ou, na maioria, era o inimigo e vilão.

Segundo contavam meus pais, a partir desta revista, lida e relida para mim incontáveis vezes, passei a desenhar histórias em imagens sequenciadas e pedia que escrevessem as falas e balões nestes desenhos.

Com o tempo a revista foi perdida, pois foi recortada, era um costume da época cortar com tesoura os personagens e incentivar a criança a criar suas próprias histórias, a própria revista incentivava isto ao trazer na capa um cupom para ser recortado pelo leitor e trocado por brindes, o que destruía a maioria dos exemplares impressos deixando poucos remanescentes de cada tiragem publicada, tornando-os raros.

Passei a ser assíduo leitor de gibis, e por decorrência disto, colecionador até hoje. Minha mãe, professora, alfabetizou-me com os álbuns de ASTERIX e TITIN, ensinando-me junto História e Geografia, lia Tintin com um mapa mundi ao lado incentivando minha curiosidade para estudar os países; também me levavam ao cinema, comentando que o filme se passava em um país que Tintin visitou, e na volta do cinema reliam o álbum para mim comentando o filme e o quadrinho.

Influenciado por meu pai passei a ganhar dele gibis do POPEYE e TARZAN junto aos faroestes, Disney foi algo que conheci somente bem depois, meu primeiro contato com narrativas em quadrinhos foi com este material que não era dirigido ao público infantil.

Logo também chegaram a minhas mãos os super heróis de Batman e Superman, Gavião Negro e Shayera, Elektrom, Flash, Lanterna Verde, etc., e em 1968, veio Hulk , Namor, Thor, Homem de Ferro e todos os heróis Shell que meu pai ganhava nas revistas EBAL ao abastecer seu carro, um “Simca Chambord”, nos postos Shell, juntando aos desenhos animados deles que eu assistia na televisão.

Com esta exposição dirigida aos quadrinhos e cinema, posteriormente estudei idiomas e formei-me “TRADUTOR-INTÉRPRETE” para poder ler no original os álbuns franceses como ASTERIX, TINTIN, VALERIAN, VAGABUNDO DOS LIMBOS, BARBARELLA , JODELLE, SAGA DE XAM, etc..

Seguiu-se a revista GRILO em 1972 e nela logo vieram os UNDERGROUND como ROBERT CRUMB, RICHARD CORBEN, junto a WOLINSKI, PICHARD, CREPAX, e depois conheci VAUNGH BODÉ, etc..

Logo depois conheci a revista GIBI com seus especiais de Nostalgia como SPIRIT de WILL EISNER, com LITTLE NEMO, KRAZY CAT, ALL CAP, BRUCUTU, PRINCIPE VALENTE (eu já conhecia o TARZAN de Harold Foster em um álbum que ganhei do meu pai) etc.

E em 1977 surge na França a revista METAL HURLAT com um tipo de quadrinho autoral e livre com autores como CAZA, DRUILLET, MOEBIUS, o Alan VOSS e o brasileiro SÉRGIO MACEDO que eu já conhecia da GRILO.

Organizei um grupo de colegas no colegial e conseguimos emprestado um mimeógrafo a álcool (era Ditadura Militar e publicar era algo perigoso e subversivo) e juntos publicamos um jornal, BARATA, que cresceu e virou uma cooperativa publicando em off set por VINTE ANOS a REVISTA BARATA, de 1979 ao ano 2000. Veiculei ali meus quadrinhos e charges políticas, artigos, contos, crônicas, poemas e obras de dúzias de outros autores. Seguíamos o modelo da ZAP COMIX de Crumb e da METAL HURLANT, ambas produzidas por grupos de autores.

BARATA estava dando visibilidade a minha obra, vendida de mão em mão em universidades locais e em bancas de jornal como a da rodoviária, e já em 1980 publiquei tiras (Strip Comics) no “Jornal de Mesa” de Santos, impresso no formato de toalha de mesa de papel e distribuído nos bares e lanchonetes, depois fiz por anos as tiras com meu personagem TATUÍ no jornal “Correio de Bertioga” defendendo a Ecologia e apoiando o plebiscito que depois elevou Bertioga a cidade, pois Bertioga era subdistrito de Santos. Seguiram-se outros jornais como CORREIO DE PRAIA GRANDE, BOÊMIO de Matão, Folha Universitária e muitos outros.

Numa revista de literatura da editora Brasilense li uma carta de Adrovando Claro de Oliveira falando da revista MATURI, de Natal, Rio Grande do Norte, Maturi é uma palavra potiguar a qual significa Caju Verde. A revista Maturi Mirin tinha o formato de cordel e era impressa em offset com tiragem enorme, de fazer inveja a editoras da grande são Paulo. Maturi era impressa em papel colorido, preto sobre fundo verde, vermelho, azul, etc.. Na Maturi publiquei minha primeira história em quadrinhos fora do estado de São Paulo, tenho muito carinho por esta revista desde sua proposta até o projeto gráfico.

Somente mais de 50 anos depois, e graças ao KATRAM GIBIS, consegui o exemplar do Flecha Ligeiro que despertou minha paixão pelas Histórias em Quadrinhos.

Fiquei surpreso com a SINCRONICIDADE, a coincidência! - Meu primeiro Gibi era do Evaldo, autor nacional do Rio Grande do Norte, e publiquei pela primeira vez fora de São Paulo na revista Maturi do Rio Grande do Norte!

Graças ao jornalista Paulo Ricardo Oliveira, que está escrevendo sobre este pioneiro dos quadrinhos, José Evaldo de Oliveira, inspirado pelo quadrinho do Evaldo lido aos meus quatro anos de idade, publiquei HQs em revistas como o álbum-coletânea "Brazilian Heavy Metal" e na Editora Abril, “Aventura e Ficção numero19, na coletânea “Pátria Armada: Visões de Guerra” e álbuns (Graphic Novels) como "Guerra das Ideias", Guerra dos Golfinhos", "A Hora da Horta", “Absurdo” e outros.

No curso de Direito direcionei meus estudos ao Direito autoral devido ao meu interesse por quadrinhos, agradeço ao José Evaldo de Oliveira por esta inspiração que norteou toda a minha vida! !

Militei pela classe dos quadrinhistas, em 1987 fui Eleito Diretor Executivo da AQC-Associação dos Quadrinhistase Caricaturistas, onde escrevi a "CARTILHA DE DIREITO AUTORAL DA AQC" , PRIMEIRO livro sobre Direito autoral específico dos Quadrinhos do BRASIL publicado e distribuído pela AQC de São Paulo (AQC-SP), também prestei CONSULTORIA de DIREITO AUTORAL . Em 2016 passei oito meses pesquisando e atualizando este livro para sua segunda edição. Agradeço aos amigos autores de quadrinhos que deram depoimentos como Adrovando Claro de Oliveira e Leonardo Tarcisio Gimenez, e aos advogados Marcos Abussafi, Marcilio de Barros Melo Santos, Tiago Coelho, Shirlei Massapust, Gustavo Aguiar, Helena Tomimoto, Anna Mazagão, e muitos outros, incluindo Promotores e Juízes que solicitaram não ser citados nominalmente. Igualmente agradeço a Worney Almeida de Souza e Bira da AQC que acreditaram e incentivaram este projeto em 1985 e nesta segunda edição em 2016.

Segundo jornalista Paulo Ricardo Oliveira, José Evaldo de Oliveira nasceu em Areia Branca em 29 de agosto de 1938 e mudou-se para Natal quatro anos depois. Em 1960, se mudou para o Rio de Janeiro, Na Rio Gráfica, o nome de Evaldo passou a figurar em capas de diversas revistas como Brucutu, Príncipe Valente, Fantasma, Águia Negra, Cavaleiro Negro, Mandrake, Capitão Marvel, Flash Gordon e Flecha Ligeira, entre outras. Entre 1976 e 1977, o artista desenhou quinze capas para a Revista Kripta, publicação de terror de maior sucesso no mercado editorial brasileiro e que impulsionou a produção e publicação de hqs de terror no Brasil. Também na editora de Roberto Marinho, Evaldo desenhou para as revistas femininas Querida e Contos de Amor, mas o trabalho que marcaria a carreira de Evaldo Oliveira no âmbito dos quadrinhos, seria o Recruta Zero, personagem de Mort Walker, com o qual trabalhou por 20 anos (de 67 a 87), tendo ilustrado e roteirizado muitas histórias do Recruta nesse período. O próprio Evaldo definia o personagem como seu ‘carro-chefe’.

Em 1987 Evaldo voltou a Natal e lecionou na Universidade Potiguar (UnP) e, a partir de 1997, passou a trabalhar como chargista no O Jornal de Hoje onde se dedicou às charges durante dez anos , publicou capas e quadrinhos nas revistas em quadrinhos Maturi e Igapó, produzidas pelo (GRUPEHQ).

Evaldo veio a falecer no dia 16 de agosto de 2007, aos 68 anos, vítima de uma parada cardíaca.

Devo muito ao José Evaldo de Oliveira, graças a ele eu dediquei minha carreira acadêmica aos quadrinhos, fui fundador e Coordenador do Grupo de Trabalho “Humor e Quadrinhos” no Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, de 1995 a 2000, o PRIMEIRO grupo de pesquisa de quadrinhos oficial no Congresso de Comunicação INTERCOM.

Também fui o idealizador e Organizador do livro com pesquisas do GTHQ - Histórias em Quadrinhos no Brasil: Teoria e Prática. São Paulo, INTERCOM/Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, GT Humor eQuadrinhos, 1997. (Coleção GTs INTERCOM, v. 7) (Organizador) ISBN 85-900400-1-1;

Anos de pesquisa depois também escrevi o livro "Histórias em Quadrinhos na Escola" – que está na TERCEIRA edição, pela editora PAULUS São Paulo, ISBN 85-349-2140-7 . PRIMEIRO livro do Brasil sobre o uso de quadrinhos para ensino em escolas, primeira edição foi publicada em 2005.

E fui convidado a ser membro do Juri e Jurado na I BIENAL DE HQ DO RIO , Rio de Janeiro, 1991-

Ainda fui o Organizador e idealizador da "I Exposição Santista de Histórias em Quadrinhos", Centro de Cultura, sob o patrocínio da Prefeitura Municipal de Santos-SP, outubro 1986.

Mas também escrevi o primeiro livro sobre subliminares em idioma português, adaptado de minhas teses de mestrado e de doutorado na ECA USP, "Propaganda Subliminar Multimídia" em SÉTIMA edição ampliada pela Summus editorial. Com inúmeros exemplos de subliminares nos quadrinhos baseado em textos de Will Eisner e Allan Moore.

Não conheci pessoalmente o Evaldo, mas é justo que eu deixe expresso meu agradecimento e tributo a este autor de quadrinhos que, para mim, foi basilar e visceral, pois despertou em mim a paixão por quadrinhos, e tudo que fiz e farei dedico em agradecimento a José Evaldo de Oliveir , todas as pessoas que toquei com minhas obras e livros, cursos e palestras, são devedoras de José Evaldo de Oliveira !

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