Blake e a Religião da Arte

William Blake é um artista que hoje nós chamaríamos de multimídia. Versátil e eclético, tal qual Leonardo Da Vinci, Göethe e outros, Blake não se deixava restringir por preconceitos estéticos.
Blake nasceu em 28 de novembro de 1757 em Londres, expressou suas idéias por desenhos, pinturas, gravuras, poesias, prosa, etc; mesclando a produção simbólica do cérebro esquerdo com as imagens do cérebro direito.

Seu profundo conhecimento esotérico ajudou-o a compreender e expressar sua intuição mística com uma obra híbrida de imagens, palavras e cores que transmitem bem suas visões.
Aos 12 anos escreveu o livro "Esboços Poéticos".Lia clássicos ocultistas como Paracelso, Jakob Boheme, Swedenborg, Gnósticos, Filosofia, Literatura, etc...

Blake revolucionou as técnicas de gravura com um método à base de cera e ácido em placas de bronze, coloridas à mão com aquarela.
Em 1782 casou-se com Catherine Boucher, filha de um jardineiro e analfabeta. Ele a ensinou a ler, escrever e pintar, e ela passa a ajuda-lo a colorir manualmente as gravuras, tornando-se sua admiradora apaixonada por toda a vida.

Um visitante intelectual encontrou Blake e Catherine nus no quintal da casa, lendo trechos de "Paraíso Perdido" de Milton, um para o outro, representando Adão e Eva.

Suas imagens mágicas refletem sua rica vida interior, inspiração visionária que o leva a auto-editar dois livros: "Cantos da Inocência" (1789) e "Cantos da Experiência" (1794), cada exemplar colorido à mão e diferente dos outros.

Quem teve a oportunidade de manusear estes originais afirma ter experimentado uma experiência estética e mística indescritível!
O texto e o desenho juntos lembram a arte taoísta chinesa, o E-Makimono japonês, as filacteras sacras medievais das catedrais e as nossas histórias em quadrinhos, uma linguagem de mistura de códigos, intermídia, intersemiose, meio poesia concreta, só que tudo, duzentos anos antes!

Os aforismos lembram haikais e arte calígrafa chinesa, e cabalisticamente, Blake explicou: "Arte é a árvore da vida".
Seus livros proféticos são de um misticismo altruísta, social, defende a Revolução Francesa e critica a miséria e exploração até de crianças, pela revolução Industrial inglesa, sendo várias vezes processado.
Blake cria um universo próprio, uma complexa mitologia pessoal que antecede Lovecraft e Clive Barker.

Para Blake, o cordeiro não é bom para representar o Cristo, o certo seria o tigre da revolta que expulsa os mercadores do templo.
Deus (Urizen) comete um pecado ao criar o universo, a separação (solve), Los (imaginação criativa) e Enitharmon (o espírito feminino), visão cósmica da ilusão humana (Maya para os yogues) até a "Filosofia dos Cinco Sentidos" (Materialismo).

O livro "Jerusalém" descreve o despertar do gigante Albion (A Humanidade) do sono de Ulro (materialismo) quando Los constrói Golgonooza, a Cidade da Arte.

Em 1809 realiza uma exposição que é sucesso de público e duramente atacada pela crítica acadêmica incomodada por suas inovações criativas, incompreendido, passa por dificuldades financeiras e ilustra catálogos de fábrica de porcelanas.

Somente depois de surgir o movimento simbolista, sua obra começou a ser compreendida em sua força criativa e coerência, chegando a influenciar até os surrealistas.

No livro 'Casamento do Céu e Inferno", Blake concilia bem e mal, razão e emoção, e de forma que lembra a tantra yoga, ele prega o amor sexual como via de condução para um estado de transe místico.
Sua sinceridade e amor à humanidade transparecem em toda sua obra, inclusive na figura cruel, castradora e tirânica do seu DEUS URIZEN que convida à rebelião criativa.

Blake faleceu amado por todos que conhecia a 12 de agosto de 1827.


"Ver o mundo num grão de areia
e o céu numa flor silvestre.
Detém o infinito na palma da tua mão
E a eternidade numa hora".
W.Blake

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