"Era uma casa muito engraçada.."

Fui ao Urugay a convite apresentar minhas pesquisas de tecnologia de ponta (Semiótica Subliminar e Midiologia subliminar) aplicadas ao Marketing Internacional no “Laboratório de Alta Tecnologia Uruguayo” (LATU), sendo recepcionado no aeroporto de Carrasco-Montevideo pelo senhor P., que trabalha em consultoria de Relações Públicas Internacional, com escritório em New York, um senhor volumoso ítalo-uruguayo que falava um português impecável e com sotaque brasileiro, que diz ter aprendido nas canções de Roberto Carlos, e que conhecia bem “as curvas da estrada de Santos”, onde veraneava quando morou no Brasil.

Aproveitei e passei uns dias em Punta del Este ; uma península, um balneário de altíssimo luxo, com mansões de veraneio de esportistas, artistas, políticos, pecuaristas e latifundiários, hotéis de cinco estrelas com heliporto no teto e cassinos no térreo. Punta está na provincia de Maldonato e tem cerca de 6 mil habitantes, na baixa temporada as lojas estão fechadas , venta muito e faz uma temperatura de oito graus no sol de meio dia!!!.

Em Punta Ballena, Urugay, ao lado de Punta Del Este, localiza-se a famosa “CasaPueblo” construída acompanhando o traçado das rochas do penhasco marítimo, um todo orgânico branco sem linhas retas, irregular e complexa, partes claustrofóbicas e partes ágorafóbicas, lembrando bastante o catalão Gaudi (Sagrada Família) e com “veias” em alto relevo pelas paredes conduzindo encanamento de água e fios elétricos, muito orgânica, biônica, sentí a mesma emoção que quando ví pela primeira vez a “Arquitetura Arquétipa” de Martin e Roger Dean-Inglaterra, anos 70 .

CASAPUEBLO começou como um excêntrico ateliêr do artista plástico Carlos Páez Vilaró …pintor, gravador, ceramista, muralista, escultor , cineasta, escritor, etc..um artista multimídia que chama casapueblo de “escultura para viver” e a concebeu como um tipo de instalação-intervenção no penhasco rochoso no qual foi crescendo espontaneamente por mais de 30 anos e continua sendo construída pelo forte Vilaró nascido em 1923 com 71 anos que passou por mim apressado e cheio de vigor com passos largos e estrondosos, semblante sério, mas de bem com a vida com seus olhos brilhantes de artista realizado .

O poeta brasileiro Vinícius de Moraes dizia que casapueblo era um labirinto grego , uma vez dentro não de sabe se está entrando ou saindo ; Vinícius compôs o hino de casapueblo:

“Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada. Ninguém podia entrar nela, porque na casa não tinha chão. Ninguém podia dormir na rede, porque na casa não tinha parede. Ninguém podia fazer pipi, porque penico não tinha alí,… mas era feita com pororó, era a casa de Vilaró “

Depois, Vinícius adaptou a canção e lançou no Brasil..é um prazer descobrir aqui sua origem..

Horacio Guarany também o cita em uma canção: “Remontando un barrilete, que quiso llegar al cielo, Carlos Paez Vilaró, contruyó su CasaPueblo”


Cada personalidade que visitou CasaPueblo teve um quarto com banheiro construído para sua estadia : Robert de Niro, Omar Sharif, Brigite Bardot , Che Guevara, Carlos Menem, Tony Curtis, Ivo Pitangui, João Gulart, Toquinho e Vinícis, Patrick (filho de Jonh Wayne) e Anthony (filho de Alain Delon) etc..

no que hoje é um hotel internacional com mais de cem quartos e sempre crescendo.

Em 1972 um dos filhos de Vilaró estava no avião que caiu no Chile, na cordilheira dos andes, quando por meses tiveram que comer carne humana, e Vilaró escreveu um livro sobre seu drama de pai, a foto do reencontro é a capa deste best-seller que virou um filme de hollywood-USA.

Visitando brasília em construção, Carlos Paez Vilaró escreveu um livro sobre ela e criou sua casapueblo sem linhas retas para ser mais humana, uma ANTI-BRASÍLIA urugaya !!! Concordo com ele..minha cidade ideal seria uma Cidade Fractal (vide, na Internet, em meu website http://www.calazans.png.br ).

Carlos foi membro fundador e incentivador do “Grupo 8 del Uruguay” , grupo de artistas plásticos com sponsoring (mecenato) de Rodolfo Mezzera cujo marketing de arte levou a produção uruguaya a todo mundo em exposições itinerantes como mostruário-vitrine para serem feitas encomendas pelos marchands locais, um excelente projeto de marketing cultural global a ser exemplo para nós, brasileiros.

Nos seus livros, a única queixa de Vilaró era contra “…la solapada tradición de obstaculizar la marcha a los que hacen cosas..” isto lembrou-me muito do ambiente de trabalho em certas faculdades brasileiras, o que mostra a universalidade da conspiração dos medíocres, improdutivos e invejosos que amargam frustração e fracasso pessoal.

Em 1964, Carlos Paez Vilaró teve sala na VIII Bienal Internacional de Arte de São Paulo-Brasil com sua “PLAC-ART” um tipo de instalação com objetos, robots, luzes , cores e sons unificados como uma fusão de Pop e Op Art, e nesta bienal recebeu o prêmio pesquisa .

Nos anos 70 criou as caixas Stand-Art, expostas a convite no MASP.

Seu filme “Pulsation” de 1969 é considerado o precursor da linguagem de videoclipes (e de experimentos como “Koyanasquatch”), “Pulsation” foi filmado por três anos no Pacífico Norte, com música de Astor Piazzola, pontuando imagem sonorizadas com o impacto do “Esperanto del silêncio” onde o espectador cria-projeta sentido, é cúmplice ao construir a história além das barreiras da linguagem..projeto interativo pioneiro, que lembra o Poema-Processo, a Instalação e a Web-Art.

A visita ao museu CasaPueblo foi o ponto alto da viagem, no meu entender, cinco dólares com direito ao vídeo-documentário sobre vida e obra de Carlos Paez Vilaró e andar pelos diversos pisos do museu a esquerda, enquanto o hotel fica à direita… na foto em meu website www.calazans.png.br , estou no restaurante, ainda comovido com a emoção de estar dentro da “escultura para morar”, a casa dos sonhos de Carlos Páez Vilaró ….

(Outro ponto interessante em Punta é uma Gargantuesca Manopla enterrada na areia da praia, uma escultura instigante de dedos com unhas insinuando provocantemente a existência do resto do corpo do gigante enterrado sob a areia, instigando e desafiando a imaginação a sentir como seria o resto soterrado.. esta Mão é uma das esculturas mais criativas que já toquei, e, para mim, um símbolo do sufocamento e memória perdida dos nossos indígenas, quer seja Incas no Perú, Mapuchos no Chile, Tupinambás-Tamoios no Brasil (Inspirando meu álbum em quadrinhos “A Hora da Horta” no website da Internet http://www.calazans.png.br )…ou das tentativas sempre enterradas de criar um bloco econômico no cone sul onde o Brasil compra Laticínios, Couro, Carne e Lã de países que produzem todos estes mesmos produtos e nunca comprariam uns dos outros…esta estátua é uma “Obra Aberta” a interpretações, diria Umberto Eco).

PÁEZ VILARÓ, Carlos. Cuando se pone el sol. [Uruguay: Ediciones de Casapueblo, febrero de 1995], 313 páginas ilustradas coloridas. Contém Biografia.

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